sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

A Cultura brasileira.


Depois que li esta entrevista, me senti no dever de compartilhar com o maior numero de pessoas possível.

Nelson Rodrigues - a última entrevista

Nelson Rodrigues, por Tito Oliveira

Entrevista de Nelson Rodrigues, concedida em outubro de 1980, ao jornalista Tom Murphy, do jornal “Latin American Daily Post”. O dramaturgo morreria dois meses depois.

Tom Murphy:
Fui recebido por um homem pálido, até mais alto do que eu imaginava, de calça azul mal ajustada pelos largos e famosos suspensórios; um homem lento no andar e na fala. Lento de dar pena. Anos depois conheci Alfredo Machado, dono e cabeça da Editora Record, a quem relatei a experiência daquele dia: “Entrevistei o Nelson Rodrigues dois meses antes da morte dele; ele já estava doente, muito mal mesmo”. O grande mentor de tantos escritores brasileiros riu: “Nelson estava muito mal sempre”. Naquele ensolarado outubro de 1980, tive o privilégio de conversar durante uma hora e pouco — sentado, como tantos de seus personagens, diante da simples mesa de cozinha — com Nelson Rodrigues. O cenário era bem Nelson: um apartamento escuro e assombroso na beira da alegre praia carioca do Leme, um cheiro leve, não do mar, mas de desinfetante. Na época eu trabalhava para o “Latin American Daily Post”, jornal de língua inglesa, que publicou a entrevista dias depois. Foi só em dezembro que eu soube da real dimensão da doença de Nelson, quando ele deu entrada num hospital. No mesmo mês, dia 21, ele morreu, aos 68 anos.

A partir da morte dele, a entrevista, que permanecia inédita em português, virou, para mim, uma grande curiosidade, quase um talismã. Eu fui um dos últimos a falar com Nelson Rodrigues, o famoso e, para tantos, infame e tarado homem das letras — o par de Tennessee Williams e Jean Genet da dramaturgia brasileira. Já no fim, já enfartado e safenado, mas nada manso, era lúcido e atuante, o maior dramaturgo nacional.

Qual é sua visão sobre o papel dos intelectuais no Brasil?
Os intelectuais brasileiros não têm nenhuma importância. Há algumas exceções, como o grande sociólogo Gilberto Freyre, mas estes constituem um grupo seleto.

Os escritores brasileiros, pelo menos, conseguem mostrar a realidade brasileira?
A cultura brasileira não é uma cultura escrita. O pouco que existe hoje da cultura brasileira é estéril. Não se escrevem romances, poemas e ensaios como antes. E só é assim que o escritor tem possibilidade de tocar nos assuntos mais profundos. O que falta entre os intelectuais brasileiros de hoje é paixão. Não dá nem para ler os jornais. As notícias são velhas! Antigamente, até os jornais eram mais dinâmicos. Um jornal como “A Noite” saía com as notícias do mesmo dia! E com muito espírito. Do ponto de vista da cultura, o Brasil hoje vive uma fase de transição. Existe uma literatura aguardando para nascer. Vai nascer cedo ou tarde, pelo menos eu espero. A literatura brasileira aguarda um gênio para tirá-la do tédio. Por enquanto, porém, não há gênio à vista. (Em 1980, os escritores e intelectuais brasileiros pareciam confundir-se com políticos, num país que corria para a mudança do regime militar para a democracia. Nelson Rodrigues criticava essa posição. Ao mesmo tempo, dizia que o mundo estava sendo dominado pelos “idiotas”.)

Qual sua opinião sobre intelectual e política na atualidade brasileira?
O intelectual que entra na política não faz nenhum bem para ninguém. Em primeiro lugar, não entende nada da política. Antigamente, a política era uma profissão para pessoas com determinados conhecimentos e hábitos. Era um dom. Todo mundo virar político é ridículo. Mas, hoje, os intelectuais vão aos comícios. Para quê? Para aparecer, tirar foto e vê-la nos jornais. Para o artista, a melhor maneira de servir a pátria é servindo arte.

Qual é sua avaliação do Brasil de hoje como sociedade?
A verdadeira história do Brasil só vai começar com a chegada em cena de uma grande figura, um Napoleão. Os Estados Unidos tiveram George Washington, a França, Napoleão. Nós tivemos Juscelino Kubitschek, um grande homem, de certa forma, com grandes qualidades, mas quando eu falo de um Napoleão, eu me refiro a algo muito maior do que um Juscelino. A China, por exemplo, teve Mao [Tsé-tung] e Chiang Kai-Shek, homens que correspondiam às necessidades da época.

E o Brasil de hoje?
Antigamente, todos eram idiotas e o sabiam. O mundo tinha milhões de idiotas, todos humildes. Muito sabiamente, eles se consideravam idiotas. Mas hoje em dia, quase todas as pessoas se consideram competentes. Os idiotas querem ser professores, ministros, presidentes. O nosso mundo é dominado pelos idiotas. A única maneira de combater essa onda de idiotice é através de um homem com o magnetismo de um Napoleão. O problema do Brasil é o mesmo de todos os países subdesenvolvidos: a falta de autoestima. Quando um povo não acredita em si mesmo, não acredita em nada. Bom exemplo disso é a mania do povo brasileiro  de massacrar a seleção de futebol. Isso me irrita profundamente. É só a seleção errar em uma coisa e todo o País vem em cima. O brasileiro só sabe torcer pela seleção quando ela está ganhando. Quando perde, vem em cima com chicote.

O sr. disse que o homem competente não tem vez. E o artista brasileiro?
Não. Eu, por exemplo, sempre tive de trabalhar como jornalista. Não que eu  despreze a profissão. Mas, nos Estados Unidos, um escritor lança um best-seller e já pode se aposentar. No Brasil, você tem de trabalhar até o fim da vida. Se eu tivesse escrito tudo nos Estados Unidos que eu escrevo aqui, eu hoje seria um homem milionário. Mas em vez disso, eu ainda tenho de trabalhar para comer.

Eu gostaria que o sr. falasse um pouco sobre a censura e o modo como ela afetou sua carreira.
Tenho muito a falar sobre censura. Sou autoridade no assunto. Nos últimos 35 anos eu tenho sido o autor brasileiro mais censurado. Censura é uma barbaridade, uma monstruosidade. O único papel legítimo para a censura é classificatório, ou seja: pode somente limitar certas coisas para certas faixas etárias. Não pode limitar, de maneira alguma, a criatividade do artista.

O sr. falou de faixas etárias. A propósito, qual a sua opinião sobre a juventude hoje?
Fui recentemente a um programa de televisão e me perguntaram se eu tinha alguma coisa a dizer aos jovens brasileiros, ao que respondi: “Que deixem de ser infantis”, somente. Nunca a juventude foi tão pouco generosa, tão pouco heroica, tão pouco humana. Espero que um dia a juventude tenha um grande renascer. É necessário. Os jovens da França praticamente tomaram o poder em 1968. Deram as costas a De Gaulle. Mas, uma vez no controle das universidades, eles não fizeram absolutamente nada. Descobriram que não tinham nada a dizer. Era tudo puro exibicionismo. Afinal, o que tem a dizer um jovem de 17 ou 18 anos? Nada. São os velhos que detém a sabedoria e que podem assumir a liderança. De Gaulle era velho. Mao era velho. Chiang era velho.

Suas peças foram sempre polêmicas. Por que escolheu temas relacionados ao sexo e à violência, tão controvertidos?
Nas minhas obras eu tento transmitir algo que vem de dentro de mim. É trabalho duro, um sacrifício. E acho que, para escrever bem, o escritor precisa de algumas obsessões, algumas ideias fixas, que sustentam a sua obra. Sem isso, o trabalho vira um caos. Um dos meus temas preferidos é a violência humana. O ser humano é um assassino natural. O ser humano é feroz. É somente isso, uma verdade e, portanto, uma obsessão.

Qual é a avaliação que faz do teatro brasileiro hoje?
Era muito melhor antigamente. Hoje todo autor virou demagogo.

Quais os seus autores favoritos? Brasileiros e estrangeiros.
Meus autores brasileiros prediletos são Gilberto Freyre, Guimarães Rosa, Jorge Amado, Graciliano Ramos, Machado de Assis e Euclides da Cunha. Gosto muito de Dostoiévski. Gosto dele desde jovem. E gosto de Tolstói. A Rússia tem, ou tinha, uma literatura de boa qualidade. Um país onde um escritor pode ser internado num hospital para doentes mentais porque escreveu algo contra o governo não pode ter uma literatura importante. Os Estados Unidos tem um dos maiores dramaturgos do século 20, Eugene O'Neill. Também tem Faulkner e Hemingway. Da França, eu gosto de Gide, Albert Camus e alguns outros. Não suporto Sartre. Ele traiu a condição de escritor quando virou político. Não me entusiasmo muito com Borges. Hoje em dia, eu estou na fase de ler os clássicos de novo. Um livro bom é sempre novo.
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Fonte: Entrevista publicada pelo jornal “Latin American Daily Post”, em outubro de 1980. E republicada no jornal “O Estado de São Paulo”, em julho de 2002.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Há muito tempo me pergunto como eram as relações entre as pessoas no inicio da nossa civilização, como viviam e como tratavam seus conflitos sociais. E a primeira relação de trabalho, teria sido escrava? Acho que sim, certamente o mais forte subjuga o mais fraco e o domina obrigando-o a trabalhar. Este tema sempre acompanha a evolução humana desde a mais antiga  noite dois tempos até os dias de hoje  e me traz a seguinte reflexão: _Sera mesmo o homem livre, nos dias de hoje? E a liberdade que conquistamos não é o instrumento que da a manutenção a nossa  prisão ou escravidão. Estará no nosso modelo de vida a chave para os grilhões que nos prendem. Ha mais de 2 mil anos atrás já havia a figura do escravo e do senhor e as relações eram mediadas por um forte e brutal código ético, em que o "senhor" podia tudo e ao escravo restava oque?
Se por um lado o senhorio exigia trabalho e dedicação por outro lado oferecia proteção, segurança, alimentação, moradia, trabalho, etc.......Já é sabido nos dias de hoje que os escravos que trabalhavam na construção das piramides trabalhavam e recebiam além de pagamento (roupas, comida, alojamento, cerveja)  pelo trabalho, assistência médica aos feridos na lida. E depois, nos anos que se seguiram como se comportou a relação de trabalho na sociedade dita civilizada pelos greco-romanos, não foi pela mesma medida? Mas e os outros trabalhadores, aqueles ditos "artesãos" que fabricavam e trocavam objetos com outras pessoas, os pedreiros, os ferreiros, tecelões,  enfim todas as outras profissões autônomas em algum momento também trabalharam  para outros senhores.
Com o advento da Revolução Industrial na europa surgiram definições como: A relação capital x trabalho que norteou a evolução das relações entre os trabalhadores e seus patrões,  prometendo melhores condições de trabalho, dignidade, liberdade, independência entre outras coisas, mas nas colonias ainda tinha vigência a escravidão negra africana que foi desarticulada pelo velho mundo, quando deixou de ser interessante e este precisava de mercados para suas manufaturas industriais.
À luz da verdade, a escravidão não é causa de desigualdade e sim consequência. O fato é que até os dias de hoje muito de promete e pouco se conquista,  e se observarmos mais de perto veremos que a luta é pelo poder (politico, financeiro,  religioso, cientifico) e pela manutenção deste poder pode-se mentir, roubar, matar, escravizar, negligenciar e muitas outras coisas.
Bom, desde o inicio percebi que a única coisa que não mudou foi a relação de trabalho para com o patrão, que continua oprimindo, maltratando, etc,etc, etc..... Nada disto, quem deve mudar é o homem, quem deve compreender o contexto em que vive é o homem, ele tem a chave dos grilhões que o libertarão, mas cuidado pois para isso precisa "atitude".

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Crescimento do PIB-Brasil em 2012


Os resultados do Produto Interno Bruto (PIB) do terceiro trimestre, que apontaram taxa de crescimento de 0,6%, levaram os economistas do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV) a confirmar para 1% a projeção para o desempenho do PIB este ano. "Talvez um pouquinho menos", algo como 0,9%, admitiu, em entrevista à Agência Brasil, o pesquisador do Ibre-FGV, Régis Bonelli, coordenador do seminário trimestral de Análise Conjuntural que o instituto promove nesta segunda-feira, na sede da FGV, no Rio de Janeiro.
A produção industrial fraca e a baixa taxa de formação bruta de capital fixo (taxa de investimento doméstico) corroboram a estimativa do Ibre-FGV. A queda da taxa de investimento pelo quinto trimestre consecutivo pode afetar a taxa de crescimento do PIB em 2013. A projeção é que a expansão se aproxime de 2,9%, ficando abaixo da meta revista pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, de 4,5% para 4%.
O quadro externo deverá influenciar o crescimento econômico do Brasil, com a Europa em crise e perspectiva de reduzida aceleração nos Estados Unidos. Bonelli disse que na América Latina, com exceção do Peru, do Chile e do México, o restante dos países não deverá estar muito bem no próximo ano. O Japão também não deverá mostrar expansão econômica expressiva.
"Em um contexto externo pouco favorável, o nosso modelo está indicando crescimento em torno de 3% ou 2,9%, no ano que vem". A China, em contrapartida, deverá crescer um pouco mais que este ano, passando de 7,6% para 7,8%, analisou o economista.
Apesar de a economia estar em desaceleração, o Brasil deverá, continuar a atrair investimentos diretos estrangeiros. "É sinal de alguma confiança. Mesmo crescendo pouco, o Brasil é um País gigantesco". Bonelli acredita que a reforma anunciada pelo governo no sistema de concessões na área de portos, ferrovias e rodovias consiga atrair também investimentos estrangeiros "onde o País mais necessita, que é na infraestrutura".
Entre os sinais positivos, Bonelli destacou a atuação do Banco Central para derrubar a taxa de juros sem afetar a inflação. Ele acrescentou que uma expansão do PIB em 2013 maior que 2,9% vai depender da retomada do investimento doméstico. "Ele meio que autorreferenda o crescimento do PIB mais lento". De acordo com os indicadores da FGV, não há sinais de grande recuperação para a taxa bruta de capital fixo à frente.
Bonelli lembrou, entretanto, que isso é um comportamento muito volátil. "Uma mudança nas regras do jogo, uma mudança nas condições internas, podem fazer isso virar muito rapidamente". O pesquisador do Ibre-FGV acredita na recuperação da indústria brasileira no próximo ano, mas avaliou que isso vai depender também do que acontecer com os países vizinhos da América do Sul, em especial a Argentina.
O coordenador da área de Economia Aplicada do Ibre-FGV, Armando Castelar, também considerou difícil que o PIB cresça até 4% em 2013, como previu o ministro Mantega. "É improvável que o investimento tenha uma recuperação muito forte", embora o governo tenha introduzido estímulos na economia reduzindo juros e aumentando o crédito público, por exemplo. "Mas o investimento é muito retraído, lá fora vai ser um ano difícil", disse à Agência Brasil.
Ao contrário deste ano, em que o investimento interno deverá cair cerca de 3%, Castelar admitiu que a taxa poderá crescer no ano que vem. Ele alertou, porém, que isso vai depender do que ocorrer com o investimento público e da velocidade com que as concessões nos setores de portos, ferrovias e aeroportos ocorram.
De maneira relevante, vai depender do que ocorrer com a Petrobras, salientou o economista, tendo em vista que a estatal responde por grandes investimentos efetuados no País. "Acho que a Petrobras está sofrendo com a questão do preço congelado". Segundo Castelar, isso inibe um pouco a capacidade de a empresa investir.
Castelar analisou que 2013 será um ano melhor que 2012, mas "vai começar pouco acelerado, porque o terceiro trimestre foi relativamente fraco, o quarto trimestre não deve mostrar uma recuperação muito forte". Nesse contexto, a expectativa é que o próximo ano cresça mais, embora "acelerando aos poucos".